Renata Valério de Mesquita, revista Planeta nº 510, de junho de 2015. Artigo Salvação pelo altruísmo - Filho do filósofo francês Jean-François Revel, o monge budista Matthieu Ricard propõe o altruísmo como ferramenta mundial para reverter a degradação do homem e da natureza.
Planeta – Como foi a decisão de mudar sua vida tão radicalmente, aos 26 anos, abandonando uma promissora carreira científica para se tornar monge budista no Oriente?
Ricard – Eu não mudei a minha vida. Quando você percorre uma trilha, desce uma montanha e encontra um vale. Você não mudou nada, só continuou seu caminho. Não tem a ver com rejeitar e abandonar tudo. É questão de explorar várias possibilidades na vida e descobrir o que faz mais sentido para você, quando ainda está em tempo. Se eu fosse decidir alguma coisa agora, às vésperas dos 70 anos, talvez já fosse tarde demais.
Planeta – Concordo, mas…
Ricard – Sim, entendi o que você quis dizer. Agora eu vou dar a resposta que você está esperando. Eu estava dedicado a estudar como os cromossomos das bactérias se dividem, no Instituto Pasteur, na França. Mas conheci um mestre tibetano que ensinava os mecanismos do sofrimento e da felicidade, como entender a própria mente, como ser um ser humano melhor. Então pensei: “Essa é uma ciência ainda melhor”. Escolhi trocar algo que achava muito interessante por algo ainda mais interessante para mim, para a minha aspiração de fazer o melhor com o tempo que tenho nesta vida. Estou muito feliz por ter feito essa escolha naquele momento, em vez de esperar minha aposentadoria para então fazê-lo.